Saber Amar?
Acabara de estacionar o
carro por debaixo das árvores que pareciam tapar tudo menos a porta por onde
queria sair. Pelo retrovisor podia reparar no muro branco de orla arredondada
que parecia deslizar com a estrada e de onde a parta verde metálica se
destacava. Envio um sms a dizer que chegara, olho-me ao espelho para ver se
estou bonito, mas parece-me ridículo ao mesmo tempo, para quê olhar, agora já
não me posso aprontar, não sou uma senhora que retoca a maquilhagem e como
tenho cabelo rapado a única coisa que posso confirmar é que a sandes rápida que
comi não me tramou o plano. Um barulho,
olho de novo para o retrovisoer r enquanto a porta se abre um labrador
acastanhado sobe ao muro para espreitar e imediatamente sem saber porquê, saio
para a receber e ao ver apenas ainda a silhueta dela já novamente o meu coração
bombeava tudo o que tinha, já passava muito desde que amara e enquanto os meus
braços detinham toda a força do mundo, as minhas pernas tremiam e a respiração parecia
não existir.
Mas que raio de força era
esta, que me atirava do alto do meu monte onde me escondera para ficar imune a
tudo isto, onde me defendia de qualquer sentimento para não me magoar, e que me
colocava agora ali, indefeso, à sedução e à sensação. Iria voltar a amar?
Sim…parecia que sim. Voltaria a saber o que é o amor, voltaria a saber amar uma
mulher, iria ter de saber sentir o amor ali…agora.
Mas o que é saber amar? Pode-se saber amar? Penso que se pode saber, mas
estranhamente sem aprende, simplesmente quando se ama sabe-se que se sabe amar,
eu sei…é estranho. Mas é como saber o que são detalhes de uma doce seda. É chegar e olhar cada centímetro como se fosse um quilómetro, é um
lento irritar, em cada palavra que apenas “gasta” o tempo, é dizer tudo e
pensar no resto em milésimos de segundo, em segundos, em minutos, horas, dias,
meses, anos, vidas e de novo em segundos. É sentir tanto que ele tenta
esconder, até os olhos o traírem e ele ter de ceder ao olhar, o olhar para os
detalhes, os requintados detalhes. Olhos,
lábios, o corpo, o toque, a energia, a vontade…Nunca é o mesmo duas vezes...
Horas passadas de conversa
e olhares lá estamos nós, próximos…muito próximos… Depois, há um passo em
frente e ela dá um atrás como se alguma vez eu a fosse atacar. Mas o passo é
outro... ela olha para o meu ombro, traçado pela alça que o divide entre a
paixão e a vontade aos olhos dele. Parado e hipnotizado vê os cabelos caírem,
com o inclinar da cabeça, não há vento, mas o movimento é típico dos sonhos de
qualquer homem, sedoso o cabelo cai dançando, numa harmonia, que parece uma música
tocada por uma harpa mas sem som, só a beleza. O movimento escadeado, dura
segundos, mas na minha cabeça passa a câmara lenta.
A alça mexeu-se... Essa
visão deveria determinar a palavra sexy...pois um ombro nu vale muitas vezes
mais que todos os poemas de beleza...pois ele revela tudo e mostra nada...
Ela levanta a alça e ergue
os olhos. Fico parado, quieto, a tremer de uma repreensão por um crime que não
cometi, mas ao invés ela estende o braço e eu percorro-o com os olhos até à
ponta das unhas que me tocam no peito. Tremo enquanto o Mundo para e levanto eu
agora a cabeça e fixo-me nuns olhos mais calmos, mas confiantes, numa espécie
de felino que já me conquistou e agora só me resta deixar ir. Mas deveria ser
eu a liderar, era suposto ser eu a avançar…não era? Ela desliza a mão até às
covinhas dos meus lombares onde já sentia os músculos a tremer mas não de frio
e puxa-me sem fazer força. E ficamos a cms...parados apenas pela outra palma
dela que ao mesmo tempo que me agarra me impede de a beijar, apenas para me
fazer ceder a qualquer pedido, ordem ou tentação. É o culminar do ser feminino,
a respiração é ofegante e no entanto trata-se de um ar que ninguém roubou.
Os detalhes acumulam-se e
há um beijo forte e rápido, sem sabor pois nenhum está ainda em si, afastamos a
cabeça e ela olha para o lado como se um crime cometesse, mas não é crime e ela
sabe-o, é o corpo que fala mais alto e aí começa a única dança que não se
pratica, não se ensina, não se aprende e não se vê, a de dois corpos falarem
sem quase se tocarem e no entanto parece que se conhecem desde que se deveriam
conhecer. Logo após este tempo que não consigo contar, vem mais uma descrição
do que é saber a amor...saber o que é uma boca num pescoço envolto em vibração
calma mas viva, saber o que é sentir os lábios tocarem a pele e ouvir um
gemer...um gemer que antecede uma inspiração sôfrega, uma falta de ar e um
arranhar nas costas, mesmo que suave acrescido de um agarrar de sede...Sim é
uma mordida, mas não doí ou magoa, é doce e possessiva, que transforma um beijo
numa seringa, carregada do que há de mais emotivo e forte no ser humano, no que
nos liga, nos pode separar, fazer querer viver, fazer mudar...um beijo
mordiscado que tem este poder de transformar um momento de prazer em um momento
de fazer amar. A seguir... a seguir é ver um pescoço que depois de mordido se
revira para ti e o olhar é outro...é sedento. É quase carnal e é sensível a
tudo e insensível ao resto.
Fico impávido e percebo
que nunca seremos iguais a elas... Somos físicos e elas emocionais... Sabemos
colocar peças mas elas sabem jogar...e aí começam mais segundos de puro prazer
visual...Ela sabe que estou preso e diverte-se com a minha loucura, não me
importo…deixo-me ver os cabelos caírem ao detalhe quando me afasto do pescoço...
e quando a fera que estava dominada vem ao de cima...ela passa a dominar, o que
sempre dominou desde o primeiro segundo em que a vi e ela me olhou.













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